terça-feira, março 08, 2011

Ser Mulher

Aqui entre nós, foi mau negócio, aquele de sair da costela de Adão; porque já começamos meio por baixo.
E olhe que tinha mais lógica sermos criadas primeiro, dado que em matéria de reprodução o macho é apenas um detalhe, mas enfim, agora não adianta mais.
Ele queria mesmo era criar o homem a sua imagem e semelhança. Nós éramos apenas um meio prático de produzir homens.
Ficamos com as crianças, a cozinha, o tanque, a cama. Somente coisinhas leves, apropriadas ao nosso frágil ser! Feitas sob medida para nos reter no seio do lar e evitar assim maiores danos ao mundo. Porque mulheres, vocês sabem, adoram uma encrenca. Decerto algum defeito de fabricação, manifestado preconceituosamente por Eva, claro, que foi logo cedendo a tentação da maçã, embora, gostasse muito mais de manga.
Não, sério: mulheres são constante ameaça. São Jerônimo, um padre muito cristão do século 4, já dizia que "a mulher é portal do demônio, o caminho da imoralidade, a picada da serpente, numa palavra: objeto perigosíssimo". E Tomás de Aquino, aquele santo que já no século 13 era tão importante para nossas ideias, afirmava que "a mulher foi criada para ser ajudante do homem, mas só na concepção...já que noutras questões o homem é mais bem assessorado por outros homens".
O que deve ser a mais pura verdade. Pois até a lei de Roma já dizia que em matéria de intelecto somos muitíssimo inferiores aos homens, equiparáveis apenas as crianças (não se ofendam, crianças.) E é por estas singelas e profundas razões que, tanto no Oriente quanto no Ocidente, desde a mais remota antiguidade, todos preferiam ter filhos homens.
Ele Inclusive.
E inclusive as mulheres, não só para agradar maridos como para evitar mais sofredoras no mundo. Em alguns lugares as recem nascidas eram sumariamente mortas, sabia? Até porque, se as deixassem viver, elas podiam durar muito. Dados estatísticos mostram que as mulheres vivem mais que homens, toleram melhor as dores e resistem mais as doenças. Não é a toa que, muito antigamente, virávamos bruxas, tínhamos pacto com o demo e até morríamos nas fogueiras da Inquisição...

É verdade que em alguns lugares ainda nos discriminam - as mães grávidas fazem uma ultra sonografia, se for menina abortam na hora; mas, deixando pra lá esses detalhes, a implicancia conosco praticamente acabou.
Verdade, gurias! Por exemplo: a gente vota, pode ser prefeita, governadora, gerente de banco! Jornalista, então, nem se fala!
Ser Mulher, hoje, é ter dinheiro e cartão de crédito, poder dar queixa em delegacia especializada, divorciar, dirigir automóvel, consumir, se estressar igualzinho a qualquer homem e eventualmente parir e criar filhos.
O tal pacto com o demo caiu no esquecimento. Com o advento do feminismo nós mulheres até acabamos ficando por cima em certas situações, inclusive na cama, o que é muito mais cômodo para todo mundo mas muita gente ainda não percebeu.

Claro que ainda existe a maior pressão para que toda mulher case e tenha filhos, além de continuar trabalhando exaustivamente fora de casa. Tanto assim que dão festa, casa, carro, dizem que se casamento fosse só bom não precisava embrulhar os noivos para presente, chamar padre e os padrinhos, botar anel no dedo e assinar papéis diante de juiz, com testemunhos...

Ainda assim avançamos muito. Nos 90 predominamos na universidades, e em 2000 todos nos querem para governar, administrar, chefiar. dizem que temos rigor, talento e sensibilidade, sabemos lidar melhor com as pessoas e somos mais justas, e assim nos dão 2/3 de todo o trabalho e só 5% de renda. Mas afinal, para quem saiu de uma costelinha, a coisa até que vai indo bem...

- Indo? E para onde senhoras?, interrompe aquele senhor desconfiado, temendo novos desastres caso não nos impeça a tempo.

Vejamos...Que tal a costa sul do Mar Negro, reeditar o império guerreiro das Amazonas?
Que mulheres! Não conviviam com homens, faziam tudo sozinhas. Amputavam o seio direito só para ficarem mais a vontade com o arco e a flexa. Quando queriam ter filhos elas "ficavam"  com seus vizinhos gargareus até engravidar, aí voltavam para casa. E se nasciam meninos, eram devolvidos aos pais...

Assustou, moço? Brincadeirinha. A coisa está apenas indo mesmo. Feito rio que corre para o mar, podendo desembocar numa praia linda, com sombra, água fresca, gente boa e muito lugar ao sol.
Deixem o mundo conosco e vocês homens vão gostar muito mais dele.

Do livro: Só para Mulheres
Sonia Hirsch

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